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O mito da virgindade

“Cuidado com quem você escolhe pra perder a virgindade!”


“Ih, vai doer muito!”


“Tem que ter certeza que tá pronta…"


"Deixa que ele vai saber o que fazer!”



São só algumas das frases arremessadas em nossa direção, muitas vezes somadas a “Você nunca mais será a mesma depois disso.”, quando falamos de virgindade.


Poucas são as mulheres que relatam ter experiências completamente tranquilas quando se fala de uma “primeira vez”. Até hoje, meninas evitam o uso de absorventes internos e coletores antes de uma primeira relação com medo de “romper o hímem” e para muitas, a virgindade é um lacre que deve ser retirado apenas por alguém especial, que mereça o “título”.


Claro que ter uma pessoa de confiança ao seu lado em uma primeira troca sexual é super importante, mas muito mais por conta da confiança e estado de relaxamento, que abre espaço para comunicar dor por exemplo, do que pelo “rompimento do hímem”.


Ritualística ou traumática, é inevitável pensar que a primeira - ou as primeiras - relações sexuais são marcas para muitas mulheres, e conversar sobre tudo isso pode ser justamente a chave para que essas sejam cada vez mais experiências de prazer e aprendizado, ao invés de experiências dolorosas e traumáticas.


É sobre isso e muito mais que vamos tratar nesse artigo, navegando pelo Mito da virgindade feminina


Preliminares


O mito de que uma menina nunca mais será a mesma depois da primeira relação (em geral, de penetração), de que a tal da virgindade irá se perder com o rompimento e desaparecimento do himem é disseminado a anos, de modo a controlar a sexualidade feminina.


Mas, há mais de 100 anos se sabe que o hímem não sangra, nem desaparece após uma primeira penetração. Sim, sys, você não leu errado. CEM ANOS!


A partir do ted talk “A fraude da virgindade com as, na época estudantes e hoje médicas, Nina Dølvik Brochmann e Ellen Støkken Dahl, tomamos consciência dos dois principais mitos anatômicos que rondam a virgindade:


O de que o Hímem sangra e que, depois de rompido, desaparece para sempre.


Dahl e Brochmann são autoras do livro “Viva a Vagina - Tudo que você sempre quis saber”, publicado no Brasil em 2017, mesmo ano em que ocorreu a palestra.


Em apenas 11 minutos, nos apresentam, dentre outros absurdos, ao fato de que sabe-se há mais de 100 anos pela ciência médica que a relação sexual vaginal não causa alterações ao hímen.


Hímens não sangram, muito menos rompem e desaparecem. O sangramento e a dor que podem ocorrer em uma primeira penetração vaginal são muito mais provavelmente vindos de uma contração da musculatura vaginal, pela tensão do momento, que provoca feridas na mucosa ou rompimento de vasos capilares na penetração.


É muito difícil que estejamos completamente tranquilas em uma primeira relação e assim corretamente lubrificadas e excitadas, portanto a penetração do pênis pode acontecer de forma a realmente nos machucar, trazendo ali uma quantidade de sangue.


Então qual seria a função do hímen?


Nenhuma.


Exatamente isso que você leu. Nenhuma. Ainda assim, o mito da virgindade foi disseminado para controlar corpos de mulheres desde o início dos tempos feudais, sendo fundamental para preservar a passagem de terras entre gerações familiares.


Quando o capitalismo começou a ser disseminado de maneira mais intensa, foi necessário que os homens criassem ferramentas de controle a respeito de sua posse de terras. Tornou-se um perigo que mulheres se relacionarem com homens de outras famílias e assim que terras passadas de sangue em sangue caíssem nas mãos de um filho bastardo.


Isso fez com que a virgindade feminina passasse a um grande troféu a ser preservado e entregue apenas para o marido, e que, após uma primeira noite de núpcias, o lençol vermelho de sangue fosse pendurado para que todos vissem e aplaudissem.




E os tempos avançam até hoje…

Ter que mostrar os lençóis na manhã após o casamento segue sendo uma tradição comum no Cáucaso, região entre a Armênia, a Geórgia, o Azerbaijão e a Rússia.


“O sangue dá aos parentes prova de que o casamento foi consumado e de que a noiva era virgem. As famílias parabenizam os recém-casados quando veem as manchas de sangue, e, assim, se completa o ritual do casamento.


Se não há sangue, a mulher é devolvida aos pais como "defeituosa", pode ser excluída pela família ou sofrer perseguição pelos pais, explica Shakhla Ismail, que estuda direitos das mulheres no Azerbaidjão.


Depois ela é considerada divorciada, e muitas vezes é difícil que consiga se casar novamente.“ coloca em reportagem Magerram Zeynalov - Da BBC News para o portal Terra.



Mas então, como é o himem?


Longe de ser uma membrana delicada e frágil que cobre a entrada da vagina, o hímen parece-se mais com um scrunchie, elástico para prender o cabelo, macio e rugoso.



"O hímen é geralmente composto de pedacinhos de carne - chamados de carúnculas himenais - com grandes diferenças entre uma mulher e outra. Podem ser dois ou três pedaços maiores, ou quatro a cinco pedaços menores, como pequenas linguetas ou pétalas, da mesma cor da mucosa da vagina", explica Marta Torrón para BBC.


E, como colocam as Dras. Norueguesas, caso sofra alguma alteração, o hímem também não irá desaparecer, mas sim repousar como pétalas na entrada do canal vaginal, quando não se reconstituindo novamente, como outras membranas da pele.


Em dados apresentados por Dahl e Brochmann “Um estudo de 1906, por exemplo, revelou que o hímen de uma trabalhadora do sexo não havia sofrido alterações e mantinha aspecto similar ao de uma jovem que nunca havia tido relações sexuais. Já outro mais recente, conduzido em 2004, observou que, de 36 jovens grávidas, 34 delas conservavam seu hímen intacto. Em resumo, o hímen pode permanecer inalterado não só depois da penetração, mas também durante toda a gravidez.”


Assim compreende-se que não é possível definir se uma mulher é virgem ou não checando sua vulva, em testes de virgindade.


Mulheres ainda são humilhadas, dúvidas, expostas, e em alguns países até mortas, se não há sangue no lençol, coloca Nina.


Testes de virgindade


Como artifício para garantir o sangramento e evitar violação e exposição, muitas mulheres ainda recorrem a métodos como cirurgias plásticas de reconstrução do hímen, a himenoplastia, ou até a compras de “hímens artificiais”.


A BBC coloca que no Reino Unido “As mulheres que se submetem à operação são, na maioria dos casos, muçulmanas de origem conservadora — que correm o risco de serem marginalizadas ou, em casos extremos, mortas, se o marido ou a família descobrem que fizeram sexo antes do casamento.”


Quando se fala no recorte da realidade dessas mulheres muçulmanas, entende-se que o problema é muito mais amplo que um fetiche de uma primeira relação sexual com o marido, passa pela realidade de ainda não emancipação das mulheres.


Mas quando vamos além e descobrimos que no Brasil de 2022 podemos comprar himens falsos pelo mercado livre , choca-se que essa realidade, que parece distante, está na verdade ainda diante de nós.





E pra quem não quer ser penetrada?


Em um relato pessoal em uma matéria interessantíssima, Andréa Romão, do canal Kama Sussa coloca:


“Quando eu tinha mais ou menos 16 anos, uma das minhas melhores amigas se assumiu lésbica, o que não mudaria em nada nossa amizade (e não mudou mesmo). Mas lembro que fiquei um pouco triste por um motivo que hoje tenho de vergonha de recordar, mas vamos lá: por pensar que ela nunca “perderia a virgindade”. Afinal de contas, na minha cabeça de dezesseis anos, a virgindade só seria perdida quando um pênis atravessasse seu canal vaginal, estourando seu hímen e criando aquela poça de sangue no seu lençol – o símbolo máximo da mácula sexual, do pecado, do fim da sua pureza e o troféu do rapaz-conquistador.”


Em uma sociedade falocêntrica, machista e patriarcal, é de se esperar que a cultura enfie a todo tempo em nossas mentes que o rompimento do hímen viria pela penetração.


Replicando a jornalista Gabriela Brito da Revista Brado, "Ao afirmar que o homem perde a virgindade quando penetra e a mulher quando é penetrada, perpetua-se a ideia que a relação sexual é exclusivamente ligada ao falo. É dizer que outros tipos de práticas sexuais não são consideradas sexo. Essa concepção da virgindade é, inclusive, lesbofóbica, considerando que não há falo dentro de uma relação sexual entre duas pessoas do sexo feminino. Não por acaso, é comum encontrar comentários preconceituosos acerca da sexo entre duas mulheres, como “lésbica não transa” ou “sexo lésbico é preliminar”, justamente porque, de acordo com esse mito, sem pênis não há penetração e sem penetração não há relação sexual.”


Acabar com o mito

Precisamos corrigir as narrativas e disseminar a ciência. Mesmo que óbvio, seguimos ano após ano com a necessidade dessa afirmação.

Espalhar que a virgindade é construída em cima de diversos mitos é importante não só para que meninas possam iniciar sua vida sexual com informação correta e menos medo, mas também ao se tratar de casos de abuso, exames de violação e medicina forense.


"Quando chega uma mulher que diz ter sido abusada e que houve penetração, as pessoas examinam a vagina e verificam se o hímen está inteiro. E, se não encontram lesões, duvidam dela", ressalta a fisioterapeuta Marta Torrón para a BBC.


Espalhar, gritar, divulgar o que não nos foi permitido saber.


E o que fazemos a partir disso? Usando de mote o subtítulo do podcast Louva a Deusa

, incentivamos vocês que espalhem esses dados, esses conhecimentos e esse artigo.


Quanto mais falamos sobre algo, mais isso se torna presente no inconsciente e no consciente coletivo.


Precisamos desmistificar a virgindade, educar corretamente as nossas meninas e lutar pela nossa liberdade sexual até que esta palavra seja apenas utilizada para santas históricas, ou para a música da Madonna.

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Mari Williams

Educadora sexual e integrante da equipe Share Your Sex

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