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Mutilação Genital Feminina - O que é? Como combater?

O assunto hoje é sério, sys! Pode até ser gatilho pra algumas. Mas é um tema necessário.

Você sabe o que é mutilação genital feminina? Sabia que é uma prática difundida até hoje?

Quer entender melhor por que e onde isso acontece? Te explicamos nesse artigo.


Para muitas pessoas, o momento de perder a virginidade simboliza um bocado. Crescimento, troca, amadurecimento, mudança de fases… ou nada mesmo, cada um interpreta como quer. Mas como é isso para pessoas com vagina que já sofreram mutilação genital?


Vamos por partes, né? Afinal…


O que é mutilação genital feminina (MGF)?

Mutilação genital feminina é a remoção parcial ou completa da parte externa da genitalia - especificamente de pessoas com vagina. Existe quatro tipos de mutilação genital em mulheres:

  • Prepucioplastia (remoção do prepúcio, a pele que recobre o clitóris) e/ ou a remoção do clitóris em si;

  • Clitoridectomia (remoção do clitóris) e uma parte dos lábios menores;

  • Remoção completa dos lábios menores e/ou costura dos lábios menores, deixando um pequeno espaço para menstruação e urinação;

  • Toda e qualquer outra prática violenta sem fundamento e indicação médica.


Campanha Open Your Eyes desenvolvida pela Terre de Femes (organização alemã) para alertar sobre a drama da mutilação genital feminina


Pesado, né, sys?


Então, se você já está chocada com a prática, vai ficar mais ainda quando souber quantas mulheres sofrem com ela. Segundo a UNICEF, 4 milhões de mulheres vivem a mutilação genital feminina todos os anos. Pelos menos 200 milhões de mulheres ao redor do mundo já foram mutiladas e, apesar do ato ser contra os Direitos Humanos, a prática ainda é extremamente realizada em 30 países!


Dentre os países que realizam mutilação genital feminina estão Egito, Indonesia, Somalia, Serra Leoa, Afeganistão, Alemanha, Irlanda e… Colombia, Peru, Equador, Panamá. Sim, nossos vizinhos!



*O mapa acima foi elaborado pela organização The Woman Stats Project, que combinou informações sobre mutilação genital feminina e dados da ONU e do Unicef de 2016.



Por que “mutilação” e não “circuncisão”?

A palavra “circuncisão” também é usada em casos de circuncisão masculina, na qual existem indicações médicas. A circuncisão masculina (retirar do prepúcio, a pele que cobre a cabeça do pênis) pode facilitar higiene e tratar fimoses.


Agora você deve estar pensando, como no século XXI isso ainda acontece?


É aí que as coisas ficam um pouco mais complicadas. Primeiro, para realmente entendermos as raízes da prática, temos que nos desprender das nossas construções sociais. Nem todos tem a mesma educação, religião, princípios e governos que temos. Vamos combinar que, a partir daqui, você vai tentar entender sem nenhuma pré concepção?


Há muito anos atrás, antes de colonização, imperialismo e globalização, muitos povos indígenas acreditavam que a mutilação era um rito de passagem de mulheres, como muitos veem menstruação hoje em dia. Apesar dessa ideia não ser mais socialmente aceita, muitos ainda creem que mulheres que não são mutiladas não são, de fato, mulheres. Por quê? Em diversos países, ainda se supõe que, se não retirarem o clitóris de pessoas com vagina, um pênis crescerá dali.


Eu sei, que doideira, né? Mas agora que você já sabe um pouco como surgiu a mutilação genital feminina, vamos para o hoje. Importante dizer que as maiores percentagens de mutilação são na Somalia, em Djibouti, no Egito, Guiné e Mali, onde 90% ou mais das mulheres já foram mutiladas. É preciso entender que esses países têm tradições culturais e religiões completamente diferentes das nossas.


Então vamos lá, os pilares da mutilação genital feminina.

  • Religião.

Muitos acreditam que a religião - principalmente o Islam - requisita seus praticantes a realizarem mutilação genital feminina. Isso na verdade é uma interpretação errada do Quran (o livro sagrado Islâmico), e existem diversas passagens no texto que são contra toda e qualquer mudança corporal nas “criações de Deus” (pessoas).

  • Falta de acesso à educação

Desigualdades sociais não são temas somente no Brasil, Sys. É comprovado que, quanto maior o índice educacional de uma mulher, menos provável vai ser dela mutilar sua filha. As percentagens caem de 98% para 71% no Egito, por exemplo, em famílias que têm acesso à educação superior.

  • Geografia

Quanto mais rural for o lugar, mais provável é de uma mulher ser mutilada por terem menos contato com a globalização, internet, educação e medidas sociais. Em centros urbanos, ainda que extremamente presente, a diferença é clara. No Sudão, as taxas caem de 93% para 77% das mulheres.

  • Patriarcado

Agora sim chegamos ao centro da questão, nosso velho (ini)amigo patriarcado.

Em muitos países, a crença de que mulheres só devem perder a virgindade na sua noite de casamento ainda domina. Neles, a mutilação genital feminina ocorre para precaver mulheres de sentirem qualquer tipo de prazer ou tentação sexual e, portanto, só transarem na sua noite de casamento. Se por acaso uma mulher perde o hímen (por qualquer motivo que seja, andando de bicleta ou de cavalo, por exemplo) antes do casamento, ou que ela tenha um hímen elástico (que não se rompe) e o marido perceber que não há sangue na noite de núpcias, isso trará um constrangimento absurdo para família, podendo até ocasionar no assassinato da mulher.


Não só isso como também é visto como uma forma de proteção. Mas proteção contra quem? Nesses mesmos países, violências sexuais estão muito presentes nas vidas das mulheres. Os homens das famílias julgam que, se suas filhas/sobrinhas/irmãs forem mutiladas, elas não vão sofrer nenhum tipo de agressão. Mas eles mesmos, homens, perpetuam essa violência. Contraditório, né? Isso parte da visão de que mulheres são “meias”. Que não são inteiras, pessoas capazes e competentes de se proteger.


É muito difícil para nós, brasileiras, com a criação que temos, aceitar isso, né? Temos que entender que transformações culturais não acontecem de um dia para o outro e que, devagarzinho, essa prática está sendo eliminada.





Quer ajudar mas não sabe como?

Educação, sys! A primeira coisa que podemos fazer para mudar o mundo é nos educar. Pesquise, leia, informe outros, assista palestras e, quando você for ver, já vai estar profissional em falar sobre mutilação genital feminina. Já que agora você tem esse conhecimento sobre o que é, manda para suas amigas também, para elas se educarem e espalharem conhecimento por ai! Enquanto todas nós não estivermos livres de violências e do patriarcado, ainda teremos muito o que lutar por!





Referências

Ahmad Thabet, Seed Mohamad, and Ahmed S. M. A. Thabet. Defective Sexuality and Female Circumcision: The Cause and the Possible Management - PubMed. The journal of obstetrics and gynecology research vol. 29,1, 2003, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12696622/.


Badran, Margot. “BETWEEN SECULAR AND ISLAMIC FEMINISM/S Reflections on the Middle East and Beyond.” Journal of Middle East Women’s Studies, no. 1, Duke University Press, 2005, pp. 6–28.


El Saadawi, Nawal. The Hidden Face of Eve, 1977.


Gruenbaum, Ellen. The Female Circumcision Controversy. University of Pennsylvania Press, 2015.


Takhar, Shaminder, editor. Gender and Race Matter: Global Perspectives on Being a Woman. Emerald Group Publishing Limited, 2016.


UNICEF. “Female Genital Mutilation in Egypt: Recent trends and projections - UNICEF DATA.” UNICEF Data, https://data.unicef.org/resources/female-genital-mutilation-in-egypt-recent-trends-and-projections/.


United Nations. “Female genital mutilation (FGM) frequently asked questions.” United Nations Population Fund, https://www.unfpa.org/resources/female-genital-mutilation-fgm-frequently-asked-questions.


United Nations. “International Day of Zero Tolerance for Female Genital Mutilation | United Nations.” the United Nations, https://www.un.org/en/observances/female-genital-mutilation-day.


Van Eekert, Nina, et al. “The Association Between Women’s Social Position and the Medicalization of Female Genital Cutting in Egypt.” International Perspectives on Sexual and Reproductive Health, Vol. 44, No. 3, Guttmacher Institute, 2018.


WHO. “Female genital mutilation.” WHO | World Health Organization, https://www.who.int/health-topics/female-genital-mutilation#tab=tab_1.


Yount, Kathryn M. “Like Mother, Like Daughter? Female Genital Cutting in Minia, Egypt.” Journal of Health and Social Behavior, no. 3, SAGE Publications. 2002, p. 336.


“FGM – National FGM Centre.” National FGM Centre – Developing Excellence in Response to FGM and Other Harmful Practices, http://nationalfgmcentre.org.uk/fgm/.



 

É pesquisadora focada em mutilação genital feminina no Egito e no conceito antropológico de agência, Tatiana sonha em ser jornalista e sexóloga, e espera continuar disseminando informação pela vida afora.




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